terça-feira, 3 de março de 2026

Combustíveis: Brasil Consegue Manter Preços Por Quatro Semanas, Diz Ex-presidente da Petrobras


 

O ex-presidente da Petrobras e senador Jean Paul Prates afirmou nesta terça-feira (3), em entrevista ao ICL Notícias 1ª edição, que o conflito no Oriente Médio já provoca alta internacional no petróleo e no gás natural, com reflexos imediatos nos Estados Unidos, mas que o Brasil tem condições de amortecer o impacto no curto prazo.

“Se estivesse na política anterior, a gasolina já estaria mais cara na refinaria e nos postos”, disse. Segundo ele, a atual estratégia da estatal permite segurar os preços por três a quatro semanas, mesmo com o barril do petróleo em elevação.

Prates criticou aumentos antecipados nas bombas brasileiras. “Isso ainda nem chegou aqui para os postos [de combustíveis], mas já tem muita gente surfando na onda dessa tragédia para se aproveitar”, afirmou.

Impactos no Brasil

De acordo com o ex-presidente da estatal, a escalada do conflito já elevou o preço do petróleo e, principalmente, do gás natural liquefeito (GNL).

O reflexo global, segundo ele, tende a pressionar a inflação. No entanto, o Brasil estaria em posição mais confortável por ser produtor relevante de petróleo e ter capacidade de refino.

Prates explicou que a política anterior, baseada na chamada paridade de importação (PPI), considerava como se o Brasil não produzisse petróleo nem tivesse refinarias, atrelando os preços internos às cotações internacionais acrescidas de frete e custos de internalização.

A política atual, segundo ele, leva em conta que a maior parte do combustível consumido no país é produzida internamente, com custos em reais e petróleo extraído no próprio território nacional. “Não podemos nos desgarrar totalmente da referência internacional, mas também não podemos agir como se fôssemos um importador absoluto”, afirmou.

Além disso, destacou que o país exporta mais de 1 milhão de barris por dia. Com o barril subindo de US$ 60 para patamares próximos de US$ 80 — podendo chegar a US$ 100 em caso de prolongamento do conflito — a receita com exportações aumenta, permitindo compensar parte da pressão interna.

“Você ganha mais na exportação de petróleo cru e consegue abrir mão de parte da margem no mercado interno”, explicou, defendendo o papel estratégico de uma estatal com controle do governo.

Quem ganha com a guerra

Para Prates, os principais beneficiados no cenário atual são os Estados Unidos. Ele destacou que o país é hoje o maior produtor mundial de petróleo, autossuficiente e exportador, além de liderar as vendas globais de GNL. Com a paralisação da produção no Catar — um dos maiores exportadores de gás natural liquefeito — os norte-americanos ampliam espaço no mercado internacional.

Segundo o senador, o movimento já vinha ocorrendo desde a guerra na Ucrânia, quando a Europa reduziu a dependência do gás russo e passou a importar mais GNL dos EUA, investindo em novos terminais de regaseificação.

Agora, com a interrupção do fornecimento do Catar, países asiáticos como Japão e Coreia do Sul podem recorrer ainda mais ao suprimento estadunidense.

“O preço do gás explodiu ainda mais do que o do petróleo. Só no gás natural já se ganha muito”, afirmou.

Prates também avaliou que o conflito tende a ser prolongado, o que sustentaria preços elevados por semanas. Ele citou ataques a instalações estratégicas na Arábia Saudita e disse que o mercado deixou de reagir apenas com “prêmio de risco” para incorporar uma expectativa real de redução de oferta.

O gargalo de 20% do petróleo mundial

No centro da crise está o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Prates descreveu a região como um “gargalo natural”: um corredor de aproximadamente 30 quilômetros de largura, com tráfego limitado pelo calado e pela geografia. “É como uma rodovia de pista simples, uma faixa para cada lado. Não é duplicada.”

De um lado está o Irã; do outro, o Omã. A proximidade com a costa torna os navios vulneráveis a ataques. Segundo ele, historicamente foram instaladas estruturas defensivas que permitem bloquear a passagem com simples ameaça.

“Se eu quiser fechar o estreito, basta dizer que está tudo apontado para os navios. Eles são naturalmente inflamáveis, especialmente os de gás natural. Ninguém quer passar.”

Com a suspensão de frotas de petroleiros e metaneiros, o fluxo foi interrompido. Países como Índia, China, Japão e Coreia do Sul dependem fortemente do petróleo e do gás que saem do Golfo Pérsico, onde estão terminais da Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos.

“Parece pouco, mas 20% do petróleo do mundo não é pouca coisa”, frisou.

ICL Notícias

 

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