O ex-presidente da Petrobras e
senador Jean Paul Prates afirmou nesta terça-feira (3), em entrevista ao ICL Notícias 1ª edição,
que o conflito no Oriente Médio já provoca alta internacional no petróleo e no
gás natural, com reflexos imediatos nos Estados Unidos, mas que o Brasil tem
condições de amortecer o impacto no curto prazo.
“Se estivesse na política anterior, a
gasolina já estaria mais cara na refinaria e nos postos”, disse. Segundo ele, a
atual estratégia da estatal permite segurar os preços por três a quatro
semanas, mesmo com o barril do petróleo em elevação.
Prates criticou aumentos antecipados
nas bombas brasileiras. “Isso ainda nem chegou aqui para os postos [de
combustíveis], mas já tem muita gente surfando na onda dessa tragédia para se
aproveitar”, afirmou.
Impactos no Brasil
De acordo com o ex-presidente da
estatal, a escalada do conflito já elevou o preço do petróleo e,
principalmente, do gás natural liquefeito (GNL).
O reflexo global, segundo ele, tende
a pressionar a inflação. No entanto, o Brasil estaria em posição mais
confortável por ser produtor relevante de petróleo e ter capacidade de refino.
Prates explicou que a política
anterior, baseada na chamada paridade de importação (PPI), considerava como se
o Brasil não produzisse petróleo nem tivesse refinarias, atrelando os preços
internos às cotações internacionais acrescidas de frete e custos de
internalização.
A política atual, segundo ele, leva
em conta que a maior parte do combustível consumido no país é produzida
internamente, com custos em reais e petróleo extraído no próprio território
nacional. “Não podemos nos desgarrar totalmente da referência internacional,
mas também não podemos agir como se fôssemos um importador absoluto”, afirmou.
Além disso, destacou que o país
exporta mais de 1 milhão de barris por dia. Com o barril subindo de US$ 60 para
patamares próximos de US$ 80 — podendo chegar a US$ 100 em caso de
prolongamento do conflito — a receita com exportações aumenta, permitindo compensar
parte da pressão interna.
“Você ganha mais na exportação de
petróleo cru e consegue abrir mão de parte da margem no mercado interno”,
explicou, defendendo o papel estratégico de uma estatal com controle do
governo.
Quem ganha com a guerra
Para Prates, os principais
beneficiados no cenário atual são os Estados Unidos. Ele destacou que o
país é hoje o maior produtor mundial de petróleo, autossuficiente e exportador,
além de liderar as vendas globais de GNL. Com a paralisação da produção no
Catar — um dos maiores exportadores de gás natural liquefeito — os
norte-americanos ampliam espaço no mercado internacional.
Segundo o senador, o movimento já
vinha ocorrendo desde a guerra na Ucrânia, quando a Europa reduziu a
dependência do gás russo e passou a importar mais GNL dos EUA, investindo em
novos terminais de regaseificação.
Agora, com a interrupção do
fornecimento do Catar, países asiáticos como Japão e Coreia do Sul podem
recorrer ainda mais ao suprimento estadunidense.
“O preço do gás explodiu ainda mais
do que o do petróleo. Só no gás natural já se ganha muito”, afirmou.
Prates também avaliou que o conflito
tende a ser prolongado, o que sustentaria preços elevados por semanas. Ele
citou ataques a instalações estratégicas na Arábia Saudita e disse que o
mercado deixou de reagir apenas com “prêmio de risco” para incorporar uma
expectativa real de redução de oferta.
O gargalo de 20% do petróleo mundial
No centro da crise está o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo
comercializado no mundo.
Prates descreveu a região como um
“gargalo natural”: um corredor de aproximadamente 30 quilômetros de largura,
com tráfego limitado pelo calado e pela geografia. “É como uma rodovia de pista
simples, uma faixa para cada lado. Não é duplicada.”
De um lado está o Irã; do outro, o
Omã. A proximidade com a costa torna os navios vulneráveis a ataques. Segundo
ele, historicamente foram instaladas estruturas defensivas que permitem
bloquear a passagem com simples ameaça.
“Se eu quiser fechar o estreito,
basta dizer que está tudo apontado para os navios. Eles são naturalmente
inflamáveis, especialmente os de gás natural. Ninguém quer passar.”
Com a suspensão de frotas de
petroleiros e metaneiros, o fluxo foi interrompido. Países como Índia, China,
Japão e Coreia do Sul dependem fortemente do petróleo e do gás que saem do
Golfo Pérsico, onde estão terminais da Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Bahrein e
Emirados Árabes Unidos.
“Parece pouco, mas 20% do petróleo do
mundo não é pouca coisa”, frisou.
ICL Notícias

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