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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Julgo Sim!


Por: Eduardo Braga – Jornalista  

Nessas horas, sempre aparece o pessoal pra dizer que nós não podemos julgar os outros, que cada pessoa é diferente, que a gente tem que respeitar e não sei o que. Eu não consigo! Julgo mesmo e julgo com rigor qualquer pessoa que, não tendo relação direta com o caso, tenha coragem de apontar o dedo e crucificar essa criança.

Uma empregada doméstica de 14 anos, vinda da zona rural, que engravida e não sabe lidar com a situação. Pronto, a internet vai a loucura para apedrejá-la.

Em nenhum dos comentários dos inquisidores virtuais vejo alguma consideração sobre o pai do bebê, sobre a família da moça, sobre a falta de educação sexual, sobre o tabu em torno dos métodos contraceptivos, sobre a falta de informação, sobre o controle estatal sobre os corpos das mulheres, sobre depressão pós-parto, sobre a burocracia para doar e adotar. Não, nada disso.

Pessoas em condições de vida muito mais favoráveis que a dela se sentem a vontade para julgá-la sem conhecê-la e saber das suas circunstâncias.

Houve até quem misteriosamente tenha conseguido entrar na cabeça da moça para escrever que ela agiu com frieza, sem remorso e tranquilamente.

Faltou dizer que fez por diversão, talvez seja um hobby. Francamente!

As pessoas precisam sair um pouco de dentro de si e enxergar o mundo ao redor. Nós somos nós e as nossas circunstâncias. Uma criança de 14 anos jamais deveria estar na situação que essa menina esteve. Engravidar, ficar sozinha, trabalhando, sem condição de ter e criar a criança, sem acesso ao direito de decisão sobre seu ciclo reprodutivo.

Não pode ser pintada como vilã por errar uma menina a quem não se deu a chance de acertar. Nós, sociedade, precisamos proteger, educar e dar oportunidade às crianças e aos adolescentes para que nunca mais uma menina se encontre na situação desesperadora que essa teve que enfrentar sozinha.

Num país onde mais de 20% dos partos no SUS são de mulheres até 19 anos, ainda há quem queira se fechar no julgamento da conduta individual desta ou daquela moça (e nunca dos moços) ao invés de enxergar os problemas estruturais que nos levam a repetidas manchetes como esta.


Palmas de pé apenas para o casal que se dispôs a adotar o bebê. A humanidade desses dois é um exemplo a ser seguido. Aos demais, guardem suas pedras, envergonhem-se por julgar sumariamente, reflitam mais sobre os valores que carregam em si, sobre a falta de empatia e compaixão. E a todos nós, muita reflexão sobre as razões de tragédias como essa se repetirem e nada ser mudado para evitá-las.

Um comentário:

Paulo Santos disse...

Concordo plenamente