Às vésperas do aniversário de 50 anos
do Golpe de Estado que mergulhou o Brasil em uma sangrenta ditadura que durou
20 anos, o advogado chapadinhense Paulo Gomes Neto, se une a outros
intelectuais e personagens da resistência para produzir um documentário sobre a
morte do estudante Edson Luís de Lima Souto.
Radicado no Rio de Janeiro, Paulo
Gomes nunca esqueceu as raízes maranhenses e ajudou a fundar o PDT ao lado do
ex-governador Jackson Lago e do jornalista Neiva Moreira, no começo da década de
80. Entre os familiares de Paulo Gomes, o mais conhecido foi o também advogado,
professor e ex-vereador Tomé Gomes, já falecido.
Na data exata em que 50 anos atrás um
golpe empresarial-militar destituía um presidente constitucional e abria as
portas para um período de censura, mortes e torturas o Blog/Folha do Baixo
Parnaíba conta a seus leitores – especialmente aos mais jovens – uma parte da
história que teve como personagem o conterrâneo Paulo Gomes Neto.
Mataram Um estudante. Podia Ser seu Filho!
Um documentário sobre o Calabouço, o
Restaurante Central dos Estudantes, em 1968, foi o cenário onde se desenrola o
estopim das grandes manifestações estudantis que abalaram a ditadura instalada
em abril de 1964 no Brasil. Na tarde do dia 28 de março, o local estava repleto
de estudantes, na maioria secundaristas, que reivindicavam a conclusão das
obras do restaurante e melhorias na alimentação, quando foram reprimidos com
violência pela Polícia Militar. Um tiro dado à queima roupa matou o jovem
estudante Edson Luís, cujo corpo foi velado na antiga Assembleia Legislativa,
que funcionava onde hoje é a atual Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no
centro do Rio.
O documentário é resultado da ideia
de um grupo de companheiros e militantes históricos que vivenciaram o episódio,
entre eles o veterano Geraldo Sardinha, o advogado Paulo Gomes, o presidente da
Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (FUEC) Elinor Brito, Edilberto Veras,
o Ceará, Adai (Sorriso), Dirceu Abreu, Leite, Zulmira e outros. Com depoimentos
de personalidades que despontaram na época, como então estudante Vladimir
Palmeira, que era presidente da UME (União Metropolitana dos Estudantes), o
músico e compositor Sérgio Ricardo, autor da música Calabouço, entre tantas
outras canções de protesto, o fotógrafo Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil e
a então estudante da Escola Nacional de Belas Artes e hoje jornalista Dulce
Tupy, entre outros, o documentário resgata a memória do movimento estudantil,
no momento em que detonou o processo de manifestações de massa que desembocaram
na famosa Passeata dos Cem Mil.
Com cerca de 1 hora de duração, o
documentário é dirigido pelo cineasta e documentarista argentino-brasileiro
Carlos Pronzato, autor de vários filmes sobre manifestações e líderes populares
no Brasil e América Latina. Produzido por La Mestiza Audiovisual, tem o apoio
do Instituto Rede Democrática (IRD), Sindipetro/RJ e jornal O Saquá. O filme
faz parte da agenda das remomorações do Golpe de 64, que vêm ocorrendo em todo
o país.
O documentário estreou dia 28 de
março na sede da OAB-RJ.
Paulo Gomes e o Cineasta Carlos Pronzato |
Paulo Gomes Neto (Entrevista à Rádio
Globo do Rio de Janeiro)
O restaurante “Calabouço”, no centro
do Rio, era uma referência para os estudantes secundaristas que vinham do
subúrbio carioca ou de outros estados, na maioria nordestinos, na esperança de
prestar vestibular para uma faculdade, sonho que poucos alcançavam. Transferido
de um local, onde funcionava há anos, para outro em piores condições, o
“Calabouço” foi o cenário da morte do estudante Edson Luís, estopim das grandes
passeatas, em 1968. Esta história agora vem à tona no documentário que está
sendo feito pelo cineasta argentino-brasileiro Carlos Pronzato, com produção do
advogado Paulo Gomes, do jornal digital Rede Democrática. Não é a primeira vez
que o advogado brasileiro e o cineasta argentino se encontram. Ano passado,
Carlos Pronzato, formado em artes cênicas na Universidade Federal da Bahia
(UFBA), realizou o filme “Carlos Marighella – quem samba fica, quem não samba
vai embora”, no qual Paulo Gomes dá um depoimento. Ex-militante da Ação
Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella, Paulo foi um dos
fundadores do PDT, o partido de Leonel Brizola, surgido depois da Anistia.
Casado com a professora Edna Calheiros, presidente da AMEAS, Associação de
Mulheres Empreendedoras Acontecendo em Saquarema, Paulo mergulhou junto com
Carlos no resgate da luta política nos anos 60, para divulgar aos jovens
de hoje uma parte da história que os livros didáticos teimam em esquecer.
Rádio Globo – Paulo, como vocês
chegaram ao tema do “Calabouço”?
Paulo – Em março, faz 46 anos do assassinato
do Edson Luiz, um símbolo da luta do movimento estudantil. O “Calabouço” era um
restaurante de estudantes, que foi fechado pelo governo que o transferiu para
um galpão inacabado, construído às pressas, sem piso, com uma comida de péssima
qualidade, o que gerou protestos dos estudantes. Naquela época, todo o
movimento estudantil estava em ascensão. Em um dos protestos no Calabouço, a
Polícia Militar chegou atirando, com tropa de choque, e reagimos com pedras e
paus. No conflito, foi assassinado de forma cruel o estudante Edson Luís,
gerando um fato político que repercutiu em todo o Brasil. Nós pegamos o corpo
dele, passamos pela Santa Casa para saber se estava realmente morto, o que foi
constatado por 2 médicos. Depois, passamos em cortejo pelo consulado americano,
onde também protestamos, e levamos o corpo para a Assembleia Legislativa, hoje
Câmara de Vereadores do Rio, onde o corpo foi velado durante toda a noite. De
manhã, já tinha aproximadamente 60 mil pessoas na Cinelândia. No final da
tarde, levamos o corpo, em passeata, para o cemitério São João Batista, em
Botafogo. Chegamos à noite. Durante o enterro, apagaram as luzes do bairro. Foi
um terror!
Rádio Globo – Nesse período você já
estava ligado à ALN?
Paulo – Eu me liguei à ALN no
processo de fechamento do Calabouço. Meu irmão tinha participado de uma
manifestação em 1966, onde perdeu uma das mãos, o que me marcou muito. Com a
radicalização do movimento estudantil, em 1968, onde o Calabouço estava
inserido, eu fui preso e condenado a 12 meses de prisão, cumpridos
integralmente. Em outubro de 69, saí da prisão e encontrei a ALN. Mais tarde,
eu entrei no PDT através do jornalista Neiva Moreira, quando o ajudei a fundar
o partido no Maranhão. Depois voltei ao Rio, onde trabalhei como advogado contratado
da Riotur. Hoje, estou no jornal online “Rede Democrática” e apoio movimentos
sociais.
Rádio Globo – Como será o filme
“Calabouço” que está sendo feito junto com o Carlos?
Paulo – O Calabouço foi uma fagulha
do movimento estudantil. Vamos mostrar a história daquela época, através de
depoimentos. Estamos entrevistando pessoas importantes como Elinor Brito,
Edilberto Veras (Ceará), Geraldo Sardinha, um lutador que saiu do movimento
estudantil e foi para o Uruguai, onde passou 4 anos na cadeia; jornalistas como
o fotógrafo Evandro Teixeira; músicos como o cantor e compositor Sérgio
Ricardo; advogados que apoiaram o movimento, professores e outros. Você sabe
que têm aparecido muitos documentários sobre aquela época. Recentemente,
participei da novela “Amor e Revolução”, do SBT, no capítulo sobre a ALN.
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